Música e cultura

E eu vi um Beatle

TEXTO: Vinícius Schiavini

Escrevo este artigo quase quarenta e oito horas depois do ocorrido, e as coisas ainda estão na minha memória mais para verificação dos fatos.
A ficha ainda não caiu.
Eu vi um Beatle ao vivo.

Eu e mais 64 mil pessoas, que fique bem claro. Ainda não estou em um nível que me permita ver shows fechados ou fazer uma entrevista exclusiva com Sir Paul McCartney.
Paul McCartney veio ao Brasil em 2010 para três shows, que seriam dois, um em Porto Alegre e um em São Paulo, mas a procura na capital paulista foi tão grande que um show extra se fez necessário. E Sir Paul atendeu ao pedido.
Foi a terceira visita de Paul ao Brasil, mas nas duas primeiras eu era muito pequeno até para entender a magnitude do evento. Em 1990 em tinha 6 anos de idade. Em 1993, 9.
Agora quem tem 9 é o Psicodelia, local em que Paul já foi capa mais de uma vez, e merecidamente. O artista mais criativo, prolífico e intenso dos quatro que saíram dos Beatles.
Podem falar que John Lennon defendeu causas políticas ou que George Harrison nos presenteou com ótimas canções de adoração, mas fato é que só Paul McCartney, mantendo uma média de um disco por ano em todos os seus projetos, soube se fazer relevante o tempo todo, com sua carreira solo, com os Wings, com o Fireman…

E é dos Wings a “culpa” em parte desta viagem.
A turnê atual celebra 50 anos de carreira de Paul e, ao mesmo tempo, divulga a versão remasterizada do disco “Band on the Run”, que Paul fez com os Wings para encher estádios. Coisa que ele ainda faz.

Fui ao Morumbi com três amigos, incluindo Agnes Bucci, a produtora do Frequência Psicodelia. Ou seja, já é conhecida desta revista.
Chegando lá já me deparei com um possível armagedom, já que as filas pareciam intermináveis, com uma promessa de bagunça… que não foi cumprida. Todos se respeitavam e conversavam, ansiosos e felizes. Todos em uma mesma sintonia. Já era o Efeito Paul.
Achei dois amigos, a Mafalda e o Falcão Azul (do Monalisa de Pijamas) e conheci a manezinha Cândice na fila, e juntos encaramos a vistoria e a espera. A longa espera. Podem ter sido 5 horas, mas mesmo 10 minutos me dariam a mesma sensação.

Às vinte e uma horas começa a ser exibido o vídeo com uma colagem de imagens de toda a vida pública de James Paul McCartney, com versões remixadas de sucessos solo dele ao fundo. Todos já estavam na mesma onda quando cantamos “Say Say Say” até na hora do Michael Jackson.
E, então, às vinte uma e trinta, as luzes se apagaram.

- Sitting in a stand of a sports arena, waiting for the show to begin… (Sentado na arquibancada de uma arena de esportes, esperando o show começar)

Com os primeiros versos de “Venus and Mars”, os gritos e pulos cessaram, e a imagem de Paul apareceu nos telões e no palco. E todos, por um instante, tiveram a mesma reação de estática.
Todos pensando a mesma coisa.
“Ele REALMENTE está aqui.”

Sendo “Venus and Mars” uma música curta, esta sensação e este pensamento perduraram por quase toda sua duração, dando lugar a uma extrema felicidade em “Rock Show”, emendada e puxando “Jet”.
Era como se não houvesse amanhã. Tanto faz se houvesse ou não, na verdade. Eu estava ali, e o ali era tudo que importava. Enquanto pulava e socava o ar a cada vez que se gritava o nome de Jet, aquele momento era eterno.
Eu não sei se conseguiria descrever todo o show sem acabar tornando isto um relato de apenas um fã. Mas isto nem importa tanto, já que, ali, eu era apenas uma pessoa que foi criada ouvindo às canções dos Beatles, e o responsável pela maioria delas estava ali, no mesmo lugar que eu, me dizendo olá.

Paul McCartney, deve-se dizer sempre, é um exímio showman. Da parte técnica já não poderia falar muito, já que sua banda é impecável, mas outros detalhes devem ser ressaltados, como sua pontualidade. O show começou o momento que deveria começar. Foi sua primeira demonstração de respeito ao público que estava ali, ansioso, esperando por horas. Para falar a verdade, possivelmente esperaríamos mais, como teve gente que passou noites em frente ao estádio aguardando, mas é muito bom saber que o artista respeita seus fãs. Algo que muitos nacionais não fazem, dando show é de antiprofissionalismo.
Todo mundo ficou encantando e se surpreendeu a cada momento em que Paul olhava para o chão. Timidez? Não, pelo contrário. Ele consultava seus papeis com as frases em português que aprendeu para conversar mais facilmente. Imagino que ali também estivessem as respostas mais diretas que o público poderia dar.
Estas frases em português podem soar banais, mas ajudaram a quebrar ainda mais um paradigma que eu pessoalmente duvido que existisse na maioria, de que Paul seria um artista “gringo”, que chegaria, tocaria e pronto. As frases em português, explicando até mesmo pontos vitais do show e ajudando a quebrar o ritmo para criar brincadeiras, uniram não só Paul com a plateia, mas a plateia com a plateia em si.
“Esta música eu fiz para a minha gatinha, mas hoje ela é para todos os namorados”, ele diz quando vai tocar “My Love”. “Esta música é para meu amigo…”, e em um momento citou John para “Here Today”, e em outro citou George para uma fantástica cover de “Something”. Aliás, as homenagens aos Beatles já falecidos fisicamente foram agoniantes se você não queria chorar ali. Muita gente nem tentou lutar. “Here Today”, que fala do fim das brigas públicas entre Paul e John por conta do falecimento do segundo, mostrou um primeiro momento de Paul emocionado, se entregando a cada canção, seja ela introspectiva ou explosiva.

E os “atos” iam se desenrolando sem que Paul pare por um instante. Trocando de instrumento, ele brincava e puxava o público, mas não deu uma demonstração de calor. Ele era o mais agitado e revigorado da banda inteira, que deve ser pelo menos duas décadas mais nova que ele, com 68 anos de idade.
(É engraçado pensar que ele se imaginou inválido e precisando de auxílio na música “When I´m Sixty Four”, e a idade de 64 passou e ele mal notou.)
Seus intrumentos ditavam o ritmo do momento: guitarra, baixo, piano, violão, bandolim, ukelele… E, destes todos, o mais explosivo era o piano. Lá, ele entoou as mais potentes baladas, mas também algumas das músicas mais poderosas, que mais fizeram o público se agitar. Claro que o melhor exemplo seria “Hey Jude”, a tradicional “quase-encerra show”, em que ele chama a todos para cantar o “Nananana” com ele. Mas esta já é obrigatória. “Live and Let Die”, entretanto, superou até mesmo o começo explosivo de “Jet”. Depois dela, ninguém esperaria mais nenhuma canção de potência – até ele gritar “let´s rock” e mandar “Helter Skelter” no segundo bis.

Ah sim, lembram quando eu disse que Paul não engana seu público em momento algum?
Depois de “Hey Jude”, a banda inteira deixou seus instrumentos e agradeceu ao público, mas ele não disse que estava indo embora. Muito artista se despede e diz até boa noite neste momento para depois voltar para o bis. Paul simplesmente agradeceu, saiu, deve ter bebido água (imagino eu!) e retornou. Foi como um “muito obrigado” por esta “primeira parte”.
Quando o público está na mesma sintonia do artista, dizem que ele “está ganho”. Se Paul “ganhou” o público, e eu diria que ele fez isso com “Jet”, ele não precisaria fazer bis, ou mesmo mandar alguma música de seu repertório mais clássico. “Helter Skelter”, apesar de adorada por beatlemaníacos, não é uma das canções mais conhecidas do povo em geral. “Yesterday” é. É, aliás, a canção que mais tocou na História, e que mais vezes foi regravada.
E o encerramento foi com a versão reprise de “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, emendada com “The End”. Mas aí Paul se despediu de verdade, dizendo “eu preciso dormir, vocês precisam dormir”. Foi como alguém dizendo “agora é hora de nos despedirmos, mas eu não queria ir, e sei que vocês também não”. Para então cantar:

- We´re sorry, but it´s time to go. (Desculpe-nos, mas é hora de ir)

Como dizer “não, não foi o suficiente, queremos mais, fiquem”? Claro que não foi o suficiente, até porque Paul tem 40 anos de carreira solo e mais 10 onde foi um dos cabeças da melhor banda de todos os tempos, então cada segundo foi precioso. E foram 10.800 segundos de show. Segundos eternos.
Paul se despede e, ao sair, tropeça em uma caixa de som. Apenas para voltar e mostrar que nem isso o derruba (em qualquer sentido que você quiser colocar a situação), ainda ostentando a bandeira do Brasil nas mãos.

A sensação depois do show é que sessenta e quatro mil pessoas dormiram e tiveram, coletivamente, o melhor sonho de suas vidas. Mas não foi um sonho, foi real, e a realidade nunca foi tão agradável.
Os Beatles são meus ídolos musicais e, eu diria, de vida, e Paul McCartney é um Beatle, mesmo a banda não estando mais reunida fisicamente.
Eu vi um Beatle.
E, no final, o amor que eu recebi foi igual ao amor que eu dei.

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