Guerras Secretas

Se há algo que a Marvel Comics sempre prezava era ser um universo coeso e interligado. Desde os primórdios os personagens interagiam entre si – a título de exemplificação, o Príncipe Submarino foi resgatado da Era de Ouro e confrontou os Quatro Fantásticos em The Fantastic Four nº 4, o Hulk os encontrou na edição nº 12 e a equipe participou da estreia da revista solo do aracnídeo (Amazing Spider-Man, de 1963); o Homem-Aranha ajudou os Vingadores a derrotarem o robô-Aranha de Kang em The Avengers nº 11 e enfrentou os X-Men originais em The X-Men nº 35; o Poderoso Thor mediu forças com o Incrível Hulk em Journey into Mystery nº 112, teve auxílio do Doutor Estranho contra Loki na edição nº 108 e enfrentou Magneto e a Irmandade original no número seguinte -, e havia um cuidado com a cronologia (data base) de cada personagem (herói, vilão ou coadjuvante) para que a continuidade fosse respeitada – tomando-se como exemplo a mencionada The Avengers nº 11, sabe-se que após o encontro com os Vingadores o Homem-Aranha enfrentou, junto com o Tocha Humana, o Besouro em Amazing Spider-Man nº 21, revista na qual o vilão relembra sua última derrota para o jovem Fantástico em Strange Tales nº 123.

A interligação (crossover) e as participações especiais (guest-starring) se intensificaram na década seguinte, com o crescimento da editora e de suas publicações: os Vingadores e os Defensores se enfrentaram e depois se uniram contra Loki e Dormammu na clássica guerra entre as equipes de 1973; a batalha final dos Vingadores, Capitão Marvel, Coisa, Homem-Aranha e Warlock contra Thanos ocorreu em The Avengers Annual nº 7 e Marvel Two-in-One Annual nº 2, de 1977.

Mas foi na década de 80 que a Marvel empreendeu seu, até então, mais ousado projeto: uma minissérie envolvendo parte de seus maiores heróis e vilões, em batalhas constantes e com repercussão direta em suas séries regulares – Marvel Super Heroes: Secret Wars (Guerras Secretas) foi publicada entre maio de 1984 a abril de 1985, roteirizada e editada por Jim Shooter, desenhada por Mike Zeck e arte-finalizada por John Beatty.

Em breve resumo, uma entidade cósmica quase omnipotente que se autodenominou Beyonder sequestrou heróis e vilões para guerrearem entre si num planeta que ele criou e que tinha partes de diversos outros (Battleworld) com a finalidade de descobrir quem venceria.

Os heróis levados foram: os Vingadores Capitão América, Thor, Homem de Ferro II, Gavião Arqueiro, Vespa, Mulher-Hulk e Capitã Marvel; do Quarteto, o Senhor Fantástico, Tocha Humana e Coisa; os X-Men Professor X, Ciclope, Tempestade, Wolverine, Colossus, Noturno, Vampira e o dragão Lockheed; por fim, o Hulk e o Homem-Aranha.

Seus oponentes: Doutor Destino, Kang, Homem-Absorvente, Encantor, o Homem-Molecular, Ultron, a Gangue da Demolição (Destruidor, Aríete, Maça e Bate-estaca), o Lagarto, Doutor Octopus, Magneto e Galactus.

Posteriormente, Doom dá superpoderes para Marsha Rosenberg e Skeeter MacPherran, que se tornam Vulcana e Titânia (Secret Wars nº 3) e resgata o Garra Sônica, que havia sido transformado em energia por Cristal e disparado em Galactus em Dazzler nº 9 e 10 (Secret Wars nº 6). Os heróis, de seu turno, ganharam a ajuda da segunda Mulher-Aranha, Julia Carpenter (também na sexta edição da série).

A quantidade de heróis e vilões envolvidos implicava uma delicada combinação entre os roteiristas para respeitar a continuidade, especialmente porque os leitores viram os personagens desaparecerem no final de uma edição e, no mês seguinte, reaparecerem com os reflexos das Guerras Secretas. Ainda, para manter a coesão do Universo Marvel era indispensável que Jim Shooter, que escrevia a minissérie, conversasse previamente com os roteiristas das séries regulares para que não houvesse uma divergência nos planos que estes tinham criado para os heróis e vilões que participariam das Guerras. Todavia, ao que se depreende da leitura conjunta das revistas regulares e da minissérie, o diálogo ocorreu apenas em parte ou Shooter, que era chefe editorial de diversas revistas à época, recebeu (ou se deu) o aval para sobrepor-se aos argumentistas das séries regulares, que depois teriam de criar explicações sobre fatos desenvolvidos na minissérie.

Nesse sentido analisemos o Quarteto Fantástico e o Doutor Destino.

John Byrne, quem escrevia as revistas da equipe, fez Sue Richards engravidar durante a viagem exploratória dos fantásticos na Zona Negativa e não fazia sentido que a Mulher Invisível, no final da gestação, participasse de agressivos combates, justificando não ter sido levada pelo Beyonder.

Ainda, era conhecimento público a paixão de Byrne pela Mulher-Hulk e seu desejo de trabalhar com a personagem no Quarteto. No Battleworld criado por Shooter o Coisa podia retornar para a forma de Ben Grimm, o que o fez desejar permanecer e explorar esse novo mundo no final dos combates e, assim, escolheu Jennifer para substitui-lo na equipe – satisfazendo Byrne na série regular da equipe. Vale destacar uma reflexão: Reed teorizou, em Fantastic Four nº 245, que Ben sempre pode retornar a forma humana, mas não o fazia porque criara uma trava psicológica decorrente de seu relacionamento com Alicia Masters. Como o casal conversou sobre o namoro em The Thing v.2 nº 10, com o herói pensando em terminar porque, apesar de ama-la, jamais poderia dar o que ela merecia, em tese estaria “livre” da pressão que criou para não retornar à forma humana. Todavia, em Secret Wars nº 9 ele mesmo atribuiu ao Battleworld a causa para sua regressão e, quando retornou para a Terra, mesmo com o fim do relacionamento em Fantastic Four nº 277, não conseguia mais voltar à forma humana. Um pequeno adendo sobre esta questão: vamos esquecer que a Alicia que se envolveu com Johnny era Lyja, uma espiã skrull, porque isso é um retcom horrível criado por Tom DeFalco em Fantastic Four nº 358 e desrespeita a evolução e maturidade que Byrne tinha desenvolvido com o casal.

O aparente arranjo entre Shooter e Byrne com a Mulher Invisível, Coisa e Mulher-Hulk não deve ter ocorrido em relação a Doom. Isso porque o monarca da Latveria teve seu corpo original destruído quando Tyros (ex-Terrax) e o Surfista Prateado caíram sobre sua cabeça em Fantastic Four nº 260. Naquela edição Byrne já indicava que Doom tinha trapaceado a morte, trocando a mente com Norman McArthur, uma das dezenas de pessoas que assistiam o combate nas ruas de Manhattan. Mas o Doutor Destino que aparece na minissérie tem seu corpo original, tanto que Encantor se oferece para consertar seu rosto ferido em Secret Wars nº 5, e o próprio vilão o repara quando roubou parte dos poderes de Beyonder em Secret Wars nº 11. Este imbróglio teve de ser solucionado pelo próprio Byrne em Fantastic Four nº 288, aproveitando-se das Guerras Secretas II, em que o Beyonder caminha entre nós buscando um maior senso acerca da humanidade. A explicação apresentada pela entidade cósmica ao Senhor Fantástico foi que o Destino das primeiras Guerras foi retirado daquele momento futuro, após restaurar seu corpo original e trocar sua mente com a de McArthur. Uma costura que somente dá para engolir porque existiu uma sequencia para a minissérie original, mas que evidencia um gravíssimo problema de continuidade que não deveria ter existido.

Citemos outro exemplo de problema de continuidade nas Guerras Secretas. Quando os heróis foram transportados para o Battleworld, o Professor X estava em uma cadeira de rodas, porém o personagem tinha voltado a andar desde Uncanny X-Men nº 167 – seu corpo original havia sido infectado pela Ninhada e Sikorsky, dos Piratas Siderais, com o auxilio de Moira McTaggert, criou um clone e transportou para este a mente do telepata. A falha pode ser atribuída ao desenhista Mike Zeck, que não pesquisou na data-base da editora a recente “cura”, e a consequência foi uma ridícula desculpa criada por Shooter em Secret Wars nº 2, a saber, o Beyonder ao transportar os heróis e vilões teria “corrigido algumas coisas”. Mas o que isso significa, que para o Beyonder o Professor tinha de permanecer paraplégico? Mas Charles Xavier não nasceu assim, perdeu a mobilidade enfrentando Lucifer, como mostrado em flashback em The X-Men nº 20 (1966). Tão estapafúrdia a frase que Shooter teve de novamente se esclarecer e, em Secret Wars nº 6, Charles lamenta ter deixado a cadeira de rodas para trás porque estava cansado em razão de suas pernas ainda estarem fracas após a “cura”. Mas, se o corpo original foi destruído e aquele era um novo, clonado, porque as pernas estariam fracas e sem rigidez?

Um último exemplo de descompasso na continuidade, agora relacionado à personalidade do personagem. Chris Claremont de longa data trabalhava com a equipe mutante e começou a traçar um romance envolvendo Colossus e Kitty Pryde (ainda transitando seu codinome entre Sprite e Ariel). No início o dilema estabelecido era a diferença de idade entre os dois – quando se beijam em Uncanny X-Men nº 165, Piotr é inflexível no sentido de que ela era, de fato, muito nova -, mas os dois demonstraram superar isso e, em Uncanny X-Men nº 180, às vésperas da abdução pelo Beyonder, o receio do russo era perdê-la para Douglas Ramsey (o Cifra, dos Novos Mutantes), quem poderia ser “tudo o que ela precisava” e que ensejou o comentário de Logan no sentido de que, se estava pensando assim, então já a teria perdido. Em verdade, Kitty não tinha pretensão de terminar com Piotr e seu sentimento para com Doug era apenas amizade, mas, como acabou não sendo levada pelo Beyonder, Shooter aproveitou o distanciamento do casal para intensificar os questionamentos de Colossus até o ponto da traição e, consequentemente, do término do namoro.

Como mencionado, o Battleworld continha partes de diversos outros mundos e nele havia um vilarejo de uma raça alienígena desconhecida com curandeira uma mulher chamada Zsaji. O Tocha Humana foi o primeiro a ser curado pela alien e com ela iniciou um relacionamento puramente carnal, com muito abrasamento e sem nenhum dos dois pronunciar qualquer palavra da língua do outro. Como Johnny Storm sempre teve diversos relacionamentos e era mulherengo, Shooter pensou que não haveria problema em ser ele o personagem que se envolveria com Zsaji – neste sentido, é possível estabelecer duas presunções sobre as intenções do roteirista: a primeira, de que desde sua criação Shooter pensou no papel crucial que a curandeira teria em Secret Wars nº 12 e, para tanto, necessitava que ela se envolvesse intimamente com um dos herois; a segunda, que se utilizou das Guerras Secretas como metáfora para fatos que se noticia terem ocorrido nas guerras que os estadunidenses se envolveram em países estrangeiros, com soldados feridos se apaixonando por suas enfermeiras, sobrepondo-se à cultura e língua distinta.

Aparentemente, Byrne não anuiu com essa trama porque pretendia tornar Johnny uma pessoa madura, mais responsável e que se apaixonaria por Alicia Masters a ponto de com ela se casar. Seria em razão desse veto que Shooter mudou o heroi que se envolveria com Zsaji? Depois de ser ferido pela Gangue da Demolição, Colossus foi deixado pelos X-Men no vilarejo para ser curado pela alien e logo depois os dois já estavam se beijando a despeito de seu relacionamento com Kitty Pryde. Teria Claremont igualmente se oposto a Shooter ou aceitou passivamente o ocorrido? Ou Shooter tinha plena intenção de acabar com o namoro por considera-lo inadequado – uma vez que Kitty tinha em torno de quatorze anos e Piotr mais de dezenove? Não é demais lembrar a polêmica na sociedade norte-americana quando descobriram que Jerry Lee Lewis, então com 23 anos, estava casado com sua prima de “segundo grau” Myra Gale Brown, de 13 anos. Mas também é interessante lembrar a conversa de Jenny (personagem de Hailey Anne Nelson e Helena Bonham Carter) com o jovem Ed Bloom (Ewan McGregor) em “Big Fish” (Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, de 2.003) em que ela, com 8 anos, se diz apaixonada por ele, com 18, e que a diferença era enorme apenas naquele momento e que desaparecia a cada década que se passasse.

Não há a menor dúvida que o envolvimento de Colossus com Zsaji foi repudiado pelos fãs. Até hoje, passados mais de trinta anos, o lindo romance entre os mutantes é lembrado com carinho e considerado como amor verdadeiro entre duas pessoas, sendo a diferença de idade algo absolutamente irrelevante e distante do conceito de pedofilia. Já a alienígena foi lançada no limbo, mal sendo lembrada por roteiristas e pelo próprio personagem, evidenciando a superficialidade e futilidade do relacionamento.

É uma incógnita se Shooter teria se arrependido de ter destruído o namoro dos mutantes. Na trama, fez Noturno lamentar a infidelidade do amigo para com Kitty (Secret Wars nº 11) e o destino final que deu para a curandeira foi a morte (nº 12). Mas esta morte ele escreveu como um ato de amor incondicional, um sacrifício para trazer Colossus de volta a vida após ele – e todos os demais heróis – serem mortos pelo Doutor Destino, que tinha roubado parte dos poderes do Beyonder e sobre eles soltou uma descarga de energia fatal após a votação unânime em que decidiram ataca-lo (nº 11).

Por fim, um último questionamento sobre a série, envolvendo o próprio enredo estabelecido, a saber, heróis contra vilões em combates sucessivos e sem um proposito relevante definido – a proposta do Beyonder era conceder ao lado vencedor o que eles quisessem.

Evidente que o roteiro não era inovador, do contrário, seguia a premissa de herois contra vilões, bons contra maus, que acompanha as histórias de super-heróis desde sempre e os da Marvel desde seu início. Ocorre que este dualismo é pobre e irreal. Somos seres imperfeitos, que carregam dentro de si tanto o Jekyll quanto o Hyde, em constante luta para ter o controle. Assim, somos capazes dos atos mais belos e também das piores atrocidades, podemos salvar ou matar, criar ou destruir. O que motiva um herói a vestir o uniforme? Se atuar por fama, se for arrogante ou preconceituoso, deixa de ser herói? A personalidade na Marvel também era um diferencial da editora, basta lembrar os dramas de Peter Parker, de Ben Grimm, de Steve Rogers e os diversos balões de pensamento contendo suas reflexões sobre a vida e o futuro. Essa peculiaridade também começou a ser desenvolvida em alguns super-vilões e um bom exemplo é o Doutor Destino, tendo seu passado sido esclarecido ao longo das edições (e anos de histórias), possibilitando entender suas atitudes, que visavam proteger seu povo e resgatar a alma de sua mãe, até se tornar o monarca da Latvéria. Podemos chama-lo ditador e vilão se o próprio povo o aclama como legítimo governante e o exalta? A ausência de oposição neste país ficcional permite traçar um paralelo com a Venezuela chavista e a Coréia do Norte do clã Kim, sendo isto o suficiente para ser um vilão?

Mas se o intuito era dividir os personagens em duas equipes antagônicas, “os bons contra os maus”, por que Magneto foi colocado junto com os herois? Os Vingadores ainda não haviam esquecido o fato de Magnus ter afundado um submarino soviético com seus tripulantes (Uncanny X-Men nº 150). A desculpa apresentada era que o Beyonder interpretou os atos altruístas do mestre do magnetismo em prol da raça mutante como algo diferente da avareza e crueldade dos demais vilões, o que permitia que fosse colocado na equipe dos heróis. De qualquer forma Magneto teve de fugir porque foi inicialmente repudiado, mas depois teve seus momentos de intimidade com a Vespa, foi procurado por Xavier e seus X-Men para formar uma terceira frente de ataque, distinta da equipe que veio a ser liderada pelo Capitão América, e no final todos se uniram contra Destino.

No entanto, e Galactus? Byrne explicou no título do Quarteto que ele era uma força cósmica da natureza, com o dever de testar os planetas com um propósito estabelecido pela própria Eternidade, e Uatu, o Vigia, afirmou que no dia em que perecesse, o Universo todo choraria (Fantastic Four nº 262). Por que então coloca-lo entre os vilões? A melhor resposta é que Shooter precisava de um antagonista do Quarteto Fantástico que fosse poderoso o suficiente para, de plano, recusar a oferta do Beyonder e enfrenta-lo, sendo derrotado como se fosse uma formiga diante da plateia perplexa de heróis e vilões (Secret Wars nº 1).

Concluindo, ainda que com diversas falhas de continuidade, narrativa e premissa pobre, pouco aproveitamento de diversos heróis e vilões, que simplesmente foram jogados na série, e ausência de personagens relevantes, Guerras Secretas serviram para o propósito de apresentar bons conflitos com cenas memoráveis – como quando o Homem Molecular joga uma montanha sobre os heróis e o Hulk a assegura sobre os ombros, salvando todos (Secret Wars nº 4). Questionamentos sobre o envolvimento da Mattel, a repercussão da série na DC Comics, e a problemática no estabelecimento da continuidade do Beyonder poderão ser temas de outros artigos. Aos leitores novos, fica o conselho de leitura obrigatória e, aos antigos, o dever de releitura.

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