O Acesso à Informação Recusado

Na edição passada, dissertou-se sobre a Teoria da Máscara Nostálgica, a que vale-se
de inconsistências e inverdades para manter nutrida uma saudade de determinados
tempos que, ora não foram vividos, ora foram mantidos em ignorância, tornando-se
uma convicção sem embasamento. Nesta vez se faz necessário abordar uma grave
força gerada desta mesma linha de raciocínio.

Desde 1994 a sociedade como conhecemos hoje foi construída. A Internet tornou-se
uma força avassaladora de disseminação de conteúdo, deixando suas raízes militares
e científicas para algo que englobou não apenas isto, mas também todas as nuances
do ser humano pós-fervilhamento cultural setentista. Segundo o sociólogo espanhol
Manuel Castells, a Internet que conhecemos é, acima de tudo, “uma criação cultural”.
Numa crescente correspondente ao mito de Prometeu, a Grande Rede apresentou à
humanidade uma maneira conveniente e relativamente rápida de disseminar
conhecimento. Do nada, uma inundação de informações passou a ser algo normal e
trivial no dia a dia das pessoas. E, matando alguns dispositivos físicos no processo, fez
com que toda sorte de notícias viajasse em segundos após o registro.

O entretenimento também se transformou conforme tudo passou a ter suporte digital.
Produtores e Consumidores passaram a apenas necessitar de um computador no
bolso que mostrasse o conteúdo desejado. Vários dispositivos que pareciam díspares,
passaram a tentar se conectar: Videogames, Celulares, Televisões, Geladeiras,
Impressoras, entre muitos outros. A Internet foi a porta principal da revolução
tecnológica, a níveis aceleradíssimos, de uma forma que o imaginário da ficção
tornou-se cada vez mais possível.

Com tudo isso, criou-se também um paradoxo absurdo. Com a facilidade de acesso,
bastando fazer uma breve busca na grande rede, as pessoas passaram apenas a
consumir o que chegar. Repassar as manchetes que leram, e não o texto
compreendido. Como num rodízio com excesso de oferta, os glutões de informação
sofrem com a indigestão provocada pela gula. E quem sabe como funciona tudo, tende
a ser a nova enciclopédia que “é bom ter em casa pra pesquisar”. Foi abraçada a
ignorância e a recusa em buscar informação tornou-se prática comum e aceita.
Acontecia antes, é verdade, mas haviam motivos que fundamentassem esse
comportamento que se alteravam com o passar das eras. Porém, desde o advento da
Internet, não se interessar por pesquisar e procurar respostas pode criar situações
constrangedoras.

Obviamente há uma diferença brutal entre uma pessoa que dedica sua vida a
pesquisar para agregar conhecimento, e uma pessoa que tem uma dúvida que 5 minutos em seu buscador de preferência vão responder com um artigo provavelmente escrito pela primeira. Embora haja em ambos os movimentos uma busca por embasamento, digamos que a pessoa pesquisadora faz todos os alicerces que o
curioso da internet vai passear. O problema é quando o segundo nem isso faz.

Pergunta a outros curiosos, valendo-se da muleta que não tem tempo e nem paciência
para isso. Começa a se julgar incapaz de tamanha inteligência. Menciona não ter idade
para essas novidades.

Ironicamente esse mesmo indivíduo é o que busca consumir vorazmente o que lhe
interessa, ainda que superficialmente. Como um retransmissor sintonizado para uma
determinada frequência, ele passa a ecoar discursos. Agregando conhecimento apenas
quando lhe convém, mergulhando na bolha intelectual, esta pessoa acha perfeitamente
normal prosseguir com conhecimento superficial de tudo, pois há quem se proponha a
fazer o papel ostensivo. Elege para si um messias, diz amém a toda e qualquer ação
que o mesmo disser, não se importando se algum dia possa acarretar num atentado
contra a própria vida.

É importante para todos a consciência do quão engrandecedor é o ato de
aprendizagem e compreensão. É quando tudo passa a fazer sentido, nada é fruto de
forças inexplicáveis, embora o ser humano não possua tempo de vida o suficiente para
um conhecimento pleno e imutável (visto que o que a ciência já conhece é um leve
rasgo no tecido do universo, mas também é coisa demais para um homem só).
Renegar o saber é só mais uma forma de voluntariar-se para uma manipulação.

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