O Credo Assassinado

Desde sempre há um tabu no cinema que parece ser difícil de quebrar: Adaptar histórias interativas dos videogames para as Telonas. “Assassin’s Creed”, uma das franquias mais rentáveis da desenvolvedora francesa Ubisoft, possui um fator complicador: seu próprio enredo é complicado demais para entregar o que interessa aos jogadores. E isso só se amplifica ao chocar-se com a barreira do cinema. Misturando Ficção Científica com História Mundial, a premissa de “Assassin’s Creed” é falar de uma antiga rixa entre a Ordem dos Assassinos e os Cavaleiros Templários, onde os primeiros protegem os tesouros do Éden como forma de defender o livre arbítrio dos humanos, e os segundos querem conquistá-los a todo custo para dominar a humanidade retirando sua capacidade de decisão. Porém, esse conflito não é visto pelos personagens históricos diretamente, e sim explorado por um descendente dos mesmos, utilizando um aparato tecnológico chamado Animus. Essa traquitana é capaz de buscar memórias genéticas, criando uma simulação de outros tempos, sincronizando a consciência do usuário com a do seu antepassado.

Nesse ponto, podemos dizer que o filme incrivelmente se mostra bem fiel à premissa dos jogos. Porém, aqui o protagonista a utilizar o Animus é Callum Lynch (Michael Fassbender), um descendente do assassino espanhol Aguilar de Nerha (também interpretado por Fassbender). Ao ser condenado à morte por injeção letal, Lynch tem sua execução falsificada pelas Indústrias Abstergo, interessada pela sua linhagem. A empresa é comandada por Alan Rikkin (Jeremy Irons) e sua filha, a Doutora Sophia Rikkin (Marion Cotillard). Ambos descendem dos Templários, e desejam descobrir a localização do Pomo de Eva, um artefato bíblico que simbolizaria a primeira desobediência humana e a pedra fundamental do Livre-Arbítrio, o que eles consideram como a causa de toda violência e desgraça que a humanidade passou. Porém esse argumento nobre apenas mascara uma vontade de domínio absoluto sobre a humanidade, que teria sua vontade própria extirpada.

É óbvio que a parte que mais nos é interessante não é a de Callum, e sim a de Aguilar. Atuante no período da Inquisição Espanhola, perseguido por Tomás de Torquemada (Javier Gutiérrez), Aguilar tem aqueles momentos que deveriam definir o filme. Toda a trama futurista acaba atrapalhando bastante a implementação da mitologia dos Assassinos, que é entregue de forma tão superficial que tanto eles quanto os Templários só parecem mesmo um bando de loucos. Os elementos vindos do jogo são tão evidenciados em diálogos que por vários momentos se é questionado por que diabos não vemos a evolução e consolidação de Aguilar como Assassino, ao invés de uma abordagem superficial em cima de uma teoria existente acerca de Memórias do Genoma, que não justifica a ascensão de Callum a suas raízes do Credo.

Apesar dos medalhões no elenco, “Assassin’s Creed” se atrapalha em sua própria gênese. E perpetua o tabu.

 

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