O Legado da Mulher-Maravilha

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Em 2016 a heroína mais icônica das histórias em quadrinhos completou 75 anos e em 2017, finalmente, teve seu primeiro filme solo estrelado por Gal Gadot. Por isso, é esperado que todo tipo de material sobre a Mulher-Maravilha apareça enquanto ela estiver em evidência.

A julgar pelo sucesso do filme, confirmado em sua bilheteria, é possível que sua presença seja notada por bastante tempo, seja por meio do marketing intenso e lançamento de produtos, seja em forma de livros e outras produções que busquem trazer à tina elementos e curiosidades pouco conhecidos do público em geral.

Para isso, não faltam livros sobre os diversos aspectos que envolvem o surgimento da Mulher-Maravilha. Muitos deles, nunca lançados no Brasil, sendo A História Secreta da Mulher-Maravilha uma das poucas exceções. Traduzido por Érico Assis, o livro de Jill Lepore investiga a vida de William Moulton Marston, criador da personagem.

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William Marston. Fonte: http://minasnerds.com.br/2017/05/29/o-que-mulher-maravilha-realmente-representa/

Para Lepore, William Marston era um homem muito à frente de seu tempo: psicólogo que inventou o polígrafo, foi convidado por  Max Gaines para ser consultor de sua editora, na época a EC Comics, na tentativa de evitar controvérsias que começavam a surgir sobre a violência nos quadrinhos. Gaines conheceu Moulton por meio de um artigo que o renomado psicólogo havia escrito em defesa das HQ. Moulton, que já havia sido consultor da Universal Pictures, chamou H. G. Peter para desenhar a história de uma nova heroína, que, embora tenha alcançado sucesso entre homens e mulheres de diversas gerações tão logo foi lançada, carregava por trás de sua criação um passado tão controverso que, caso chegasse ao conhecimento de seus editores e de seu público, seria banida para sempre das bancas de jornais.

Lepore se referia ao fato de que Marston, além de ser casado com duas mulheres, Elizabeth Halloway e Olive Byrne, tinha forte ligação com o movimento sufragista, uma vez que Byrne era sobrinha de Margareth Sanger, uma enfermeira que abriu a primeira clínica de aborto nos EUA.

Controvérsias à parte, em seus 75 anos de história a Mulher-Maravilha não só teve diversas fases, passando pela mão de diversos roteiristas e desenhistas, como também seu papel social sofreu muita influência dos diversos contextos históricos pelos quais ela transitou: já foi considerada feminista, embaixadora da paz, ganhou cargo na ONU e depois foi removida, já foi símbolo sexual e hoje é bissexual.

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Petição da Onu – Fonte: http://minasnerds.com.br/2017/05/29/o-que-mulher-maravilha-realmente-representa/

Embora essas informações possam parecer irrelevantes, já que estamos falando de uma personagem fictícia, vale lembrar que ela é a primeira super-heroína a ter um filme solo depois de mais de 70 anos de existência, quando outros heróis já tiveram suas histórias adaptadas para o cinema e para a TV algumas centenas de vezes.

Este fato, por si só, já diz muita coisa sobre os problemas de representatividade e de gênero inerentes à nossa sociedade. Por mais que muitas pessoas não consigam enxergar, a relevância da personagem é tamanha, que ela foi capa da primeira revista feminista produzida pela ativista Gloria Steinen, nos anos 1970, a Ms. Magazine.

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Ms. Magazine. Fonte: http://minasnerds.com.br/2017/05/29/o-que-mulher-maravilha-realmente-representa/

Por mais que muitos leitores resistam em associá-la a qualquer ideia ligada ao feminismo, seu surgimento foi determinante para que outras heroínas pudessem ser criadas. De acordo com Lilian Robinson, em seu livro Wonder Woman: Feminism and Superheroes, se não fosse pela Mulher-Maravilha, várias heroínas não teriam sido desenvolvidas e, principalmente após 1986 – Crise nas Infinitas Terras – a complexidade de muitas personagens femininas foi aprofundada, como aconteceu com a Mulher-Hulk e as integrantes dos Vingadores.

Ainda assim, até início dos anos 1990, grande parte das personagens femininas serviam apenas para o desenvolvimento dos protagonistas masculinos, como observou Gail Simone, naquela época. Após a morte de Alexandra DeWitt, então namorada do Lanterna Verde na edição nº54, de 1994, Gail resolveu fazer uma lista de todas as personagens femininas que foram mortas, violentadas ou simplesmente apagadas para que o protagonista pudesse ter um motivo para lutar. Essa lista, que deixou de ser atualizada há muitos anos, virou referência no meio dos quadrinhos justamente por ser muito extensa, assim, Women in Refrigerators, em alusão à Alexandra, que teria sido deixada em pedaços em uma geladeira, se tornou um símbolo do tratamento masculino dado às personagens femininas.

Ao longo dos anos 1990, nomes como Robert Liefeld tornaram-se exemplos para uma geração que crescia lendo quadrinhos onde as personagens femininas tinham proporções tão absurdas, que acabaram dando nome a uma técnica de desenho chamada “técnica da coluna quebrada”, ou seja, uma forma de conseguir desenhar seios e nádegas em um mesmo plano, de forma completamente inverossímil, de maneira que as mulheres pareciam literalmente ter suas colunas quebradas, já que tais posições são humanamente impossíveis.

Porém, como o advento da internet, grupos que nunca se viam retratados nas produções artísticas ou que eram sempre representados de forma pejorativa ou inverossímil, começaram a se expressar nas redes sociais, deixando bem claro que a cultura pop estava deixando de lado pessoas que representam grande parte da força de trabalho mundial, pessoas que têm dinheiro para consumir bens culturais, mas que não estavam mais dispostas a consumir produtos que não dialogassem com suas próprias narrativas.

Nesse sentido, é extremamente importante que produtores de cultura pop prestem atenção ao que está acontecendo em torno da Mulher-Maravilha: se por um lado os homens passaram a vida toda assistindo às mulheres serem representadas sempre dentro de uma perspectiva masculina, que as objetifica e as sexualiza, é apenas lógico que eles não percebam quando isso acontece.

Por isso, ao assistir um filme protagonizado e dirigido por mulheres, é imprescindível que as pessoas comparem as escolhas dos ângulos da câmeras feitos pela Patty Jenkins e pelo Zack Snyder. É importante que comparem uma HQ desenhada pela Bilquis Evely e uma desenhada pelo Frank Cho, por exemplo. O que para muitos homens é natural, uma expressão artística, para as mulheres é extremamente ofensivo e exercícios como estes ajudariam a entender porque a existência da Mulher-Maravilha e seu filme, são tão relevantes.

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Mulher-Maravilha. Fonte: http://minasnerds.com.br/2017/05/29/o-que-mulher-maravilha-realmente-representa/

Quando homens não percebem um close no meio das pernas da Gal Gadot, simplesmente porque é assim que estão acostumados a nos enxergar, fica bem claro o problema de gênero que temos em nossas produções artísticas, afinal, se a objetificação feminina não incomoda, se ela sequer é percebida em um filme, é possível acreditar que essa lógica se aplique às relações cotidianas e justifique não só o machismo estrutural, como o alto índice de violência contra as mulheres no mundo todo.

Então, quando mulheres do mundo todo assistem a um filme e passam a maior parte desse filme chorando, mesmo sem nunca terem lido uma única HQ da personagem, isso certamente significa muita coisa, significa que estamos diante de uma experiência inédita e pela qual esperamos muito tempo. Uma das melhores explicações sobre como foi para muitas mulheres terem assistido a esse filme dizia: “Assistir ao filme da Mulher-Maravilha foi como usar óculos pela primeira vez. Eu não percebia como tinha que espremer meus olhos para enxergar através do olhar masculino, até que um dia não precisei mais. ”

Logo, o maior legado da Mulher-Maravilha é justamente proporcionar que tantas questões sejam trazidas à tona, proporcionando reflexões, discussões e análises que indicam que estamos diante de uma grande mudança ou que, ao menos, podemos ter esperança em relação a isso. Pela primeira vez na história, temos um filme de super-heróis dirigido e protagonizado por mulheres, mas que tem o mesmo alcance e poder de entretenimento que qualquer outro filme de ação. Pela primeira vez, muitos homens estão aprendendo que existem maneiras de se dirigir e retratar mulheres e que não necessariamente sejam ruins ou menos interessantes, mas que são mais respeitosas, menos agressivas.

Quem sabe tenhamos mais discussões que façam com que os homens finalmente percebam que mulheres podem ser fortes, lindas, sexy e inteligentes sem que sejam resumidas a objetos. Se isso acontecer, a Mulher-Maravilha terá cumprido exatamente o papel que William Marton imaginou para ela: de tornar o mundo um lugar melhor para todos por meio do seu exemplo, de sua luta por justiça e paz.

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