O mau uso da Nostalgia

Segundo definição do Significados.net, a Nostalgia é um sentimento de tristeza
profunda pela falta de algo. Uma melancolia ou uma saudade que pode ser desencadeada também por boas lembranças, que nos trazem um ímpeto em querer reaver aquela sensação.

Costumo dizer que há uma forma benéfica (e correta, por assim dizer) de utilizar algo.

Uma faca, por exemplo, pode ser utilizada para uma gama enorme de procedimentos que
auxiliam na sobrevivência do indivíduo. Mas também há aqueles que lhe trazem a ruína, como
cometer um crime, ameaçar pessoas. A teoria a ser desenrolada neste texto é a de como a
Nostalgia como catalisador de obsessões pode ser usada de sua pior forma: A máscara.

Todos nós já passamos por isso. Quando a lembrança vem, deflagra a saudade, e se
pensa o que pode ser feito para relembrar. O baile, o sorvete, os tempos que se passaram.
Mas é preciso tomar cuidado quando a máscara da Nostalgia enevoa a verdade. Aquele
sorvete delicioso que se prova quando criança pode passar por mudanças de receitas com o
passar do tempo, por exemplo. Há formas de aproximar muito a experiência do que a Nostalgia
costuma ditar, e inclusive reconstituir, mas cada experiência na vida torna-se única pela
descoberta e pela recompensa.

O resultado de tornar-se refém da Nostalgia é bem evidente nos dias de hoje.

Reclama-se de uma dita crise de criatividade, mas ela não passa de um sintoma derivado de
um consenso de pessoas controladas pela obsessão em refazer grandes sucessos do
passado. Ignora-se fatos importantes baseados em experiências agradáveis que conviveram
com crises políticas terríveis, tornando tudo eufemizado na cabeça das pessoas. A Máscara da
Nostalgia nutre a ignorância a níveis perigosos, onde dependendo do vetor, o resultado ou é
quase nada, ou é avasssalador.

Historicamente, a Máscara da Nostalgia já se provou devastante quando aliada a outros
sentimentos, como os de ignorância e fantasia, por exemplo. Há uma diferença em conhecer
períodos da história da humanidade por quem as conta com pompa e orgulho, e períodos onde
de fato documentou-se a história. Um momento comum às fantasias é a Idade Média, que
aparece nos contos de J.R.R. Tolkien, nos contos de fadas e de Capa e Espada, além dos
livros de George R. R. Martin. Essa glamourização deste período cria a nostalgia, onde o
público passa a julgar que os personagens centrais são objetos de identificação, e que seria
bom viver em tempos onde todos trajavam vestes opulentas e viviam cercados de servos. Essa
máscara esconde os próprios vassalos, além dos plebeus que seguiam seus dias abaixo da
linha da pobreza. Por sinal, a mesma peste negra que derrubava camponeses desdentados,
também afetavam os nobres de dentes podres.

Num contexto mais dentro da História Brasileira, há os que digam que as Terras
Tupiniquins funcionaram melhor quando éramos governados pelos Orleans e Bragança, e
ainda tem aqueles que pedem de pés juntos que retornemos para a Monarquia. Embora não
seja possível garantir, historicamente avançamos durante o Segundo Reinado, quando Dom
Pedro II fez amplos investimentos estruturais no Brasil. O golpe militar que originou a
República, perpetrado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, deu fim a um capítulo e iniciou
outro, que consolidou um costume remetente às Capitanias Hereditárias. É impossível afirmar
que se de uma hora para outra a nação passasse a ser governada pela atual família real,
estaríamos livres de chagas como a corrupção endêmica da Nova República. Hoje em dia há
disputas familiares entre os ramos de Vassouras e Petrópolis, um querendo derrubar o outro
para dizer a todos os brasileiros quem deveria ser o monarca caso o cataclisma
político-governamental retornasse o poder a eles. Estas disputas atrapalhariam o ponto central
da mudança de política, que seria a de melhorar as condições de vida do Brasileiro.

Falta justamente esse momento analítico para a nostalgia ser melhor utilizada. Não
prosseguir de forma ponderada ao que foi marcante naquela experiência, sim, pode ser
destrutivo. Esse sentimento pode ser um poderoso efeito coletivo, caso seja bem empregado.
Foi a Nostalgia que levou Felipe Castanhari a se tornar um dos maiores Youtubers do Brasil.
Inclusive, com a feitura do canal, o próprio demonstrou que revisitar o passado pode ser uma
excelente maneira de compreender o presente e o futuro, desde que se use racionalidade
nessa jornada. Com os programas Nostalgia História e Nostalgia Ciência, Castanhari põe este
princípio em prática, não deixando o conhecimento de nossa própria existência ser esquecido,
além de traduzir para uma audiência mais jovem tudo o que foi apontado e exemplificado aqui.

Obliviar os fatos é vestir a máscara nociva que a Nostalgia pode ter atrelada a si. É
deixar espalharem uma falácia atrás da outra, concretizando o princípio que uma mentira
promove-se para verdade com a repetição exarcebada. Buscar conhecimento e enriquecer
aquela saudade, é transformar a primeira experiência em algo maior e mais prazeiroso.

É a natureza curiosa humana que nos move. E o conhecimento que nos empodera

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