Os Anos 80 São Agora

Enquanto gravava seu álbum solo Melt, Peter Gabriel aguardava Phil Collins gravar a bateria. Um microfone no teto do estúdio, para comunicação entre banda e cabine, acabou gravando a sessão de bateria e transmitindo com um compressor. O resultado foi uma batida com certo eco e que, quando se pensa que parou, volta com alguma força. É o Gated Reverb.

Apesar de “Intruder”, do Peter Gabriel, ser uma música conhecida, o Gated Reverb bombou com “In the Air Tonight”, música solo do Collins. Ouça aí as duas.

 

Bom, fato é que agora você pode ouvir a seguir duas músicas com Gated Reverb:

 

E o que essas músicas dos Bleachers e da Lorde tem em comum? Além das duas possuírem o Gated Reverb, foram lançadas neste ano de 2017 e produzidas por amantes dos anos 80. Na verdade, no canal do Bleachers é possível ver experiências com uma bateria eletrônica.

Quase trinta anos depois, o Gated Reverb está de volta. E não vem sozinho.

Sistematicamente, todos os apelos dos anos 1980 estão sendo usados novamente. Enquanto o Gated Reverb e sintetizadores sinalizam uma vontade de soar como naquela década, a moda voltou até a usar combinações de cores mais ousadas e, vejam só, bandanas e faixas.

Faixas.

O Mullet Clássico, ou Mullet Original, agora está de volta com o nome Long Mullet: um cabelo mais batido no meio e comprido com fios se enrolando no final. Puxe pela memória o Chitaozinho dos anos 1980 e tire a franja. É isso.

Não bastasse tudo isso, tem o visual. Olhe só a capa do mais recente álbum da Carly Rae Jepsen, a moça do “Call Me Maybe”:

Tem umas linhas brilhantes num tom de rosa! Uma blusa colorida com meia-calça! A FONTE! E, ainda por cima, o nome brincando de separar sílabas.

Meu Deus, isso é Anos 80 demais.

E nada disso é coincidência.

Os Anos 80 foram A Década Sem Regras. As pessoas que produziam esse conteúdo cultural nos anos 1980 em si saíram de três décadas completamente contraditórias: os anos 1950 foram do comportamento familiar e quieto, os anos 1960 foram de uma exploração de vontades e os anos 1970 foram de um novo establishment. Tudo que envolvia design, música, filmes… tudo tinha uma nova roupagem, como se absorvendo tudo que foi acumulado.

E todos ficaram velhos.

E os Anos 1980 foram a nova década da juventude. Eles não precisavam mais lutar por igualdade sexual, já entendiam de liberdade de amor e os horrores das guerras. Queriam algo novo, e quem melhor pra trazer tudo isso que a tecnologia? Sintetizadores, compressores, pacotes gráficos! Atari! Gated Reverb! Cores vibrantes! Tudo ao mesmo tempo era obscuro, porque foi uma década que priorizou a noite, e promissor, sempre prospectando um futuro que foi completamente diferente do que se podia imaginar.

Fuga de Nova Iorque se passa em 1997, meu Deus.

Ninguém, em qualquer nível de consciência, poderia imaginar que aqueles Estados Unidos de Reagan e esta República Federativa do Brasil de Sarney, ao mesmo tempo encarando nova liberdade e um certo medo frequente (da bomba atômica ou da recessão), teriam aqueles Anos 90, a Década Sem Limites. Todos esperavam algo melhor, muito melhor.

Aí tudo veio, e tudo passou, e estamos nos tempos de hoje.

E, nos tempos de hoje, quem produzia nos anos 80 é velho. E ao mesmo tempo não é. Nosso conceito de velhice e juventude, de pessoa que não mais pode contribuir para a sociedade, mudou drasticamente. Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, banda que surgiu do Aborto Elétrico no começo daquela década, passa mais juventude que muitos por aí. Filmes como Robocop são refeitos porque a atual geração Millenial vive com uma vontade de só consumir o que lhe soar novo, mas o original tem ainda seu valor.

Quem sobra na produção cultural além de quem já existia e pode estar viciado na sua própria linguagem? A juventude. Hoje, no Brasil, a idade média do brasileiro está na casa dos 30 anos. Isso quer dizer que a média de idade predominante no país é justamente de gente que era criança e viveu a década dos anos 80. Junte a nostalgia, aquela sensação gostosa de lembrar como era interessante ver a distorção na tela quando pausávamos o videogame, com a possibilidade econômica e social de apresentar nossos gostos e visões, e temos então os anos 80 voltando a vigorar.

Claro que existem diferenças. Você está vendo uma, já que a leitura deste texto só é possível por conta do surgimento e popularização da internet. Porém, além disso, estamos falando da miríade de televisão e cinema e revistas e jornais e tudo mais que nos apresenta muito e muito conteúdo todos os dias.

Muito provavelmente você não havia percebido toda esta influência, mas estamos vivendo nos Anos 80 novamente.

Nos resta torcer para que os 90 nunca venham.

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