Primavera da esperança

O seu olhar, embora parecesse perdido enquanto olhava pela janela e via apenas devastação, na verdade representava um dos seus momentos de reflexão, não muito frequentes desde que passara a lutar para sobreviver naquele holocausto.  E apesar de tudo, alguns dos jovens que faziam parte do grupo, ainda tinham curiosidade pelas suas histórias. E Elisa as contava, quantas vezes julgasse necessário.

– Aquela geração, que na década de 50, se recusou a viver e aceitar um mundo sombrio decorrente da guerra, jamais imaginaria algo assim.

– Tia, eles passaram por algo parecido com o que estamos vivendo agora? – perguntou um rapaz.

– Não, Jaime. Mas eles sabiam que outras pessoas sim, encaravam o horror na carne e que aquela guerra não tinha sentido. Embora não pudessem, de fato, fazer nada diretamente para impedir o que já estava sendo feito, pelo menos resolveram abraçar uma opção para um futuro menos trágico: o amor. Eles viveram um momento em que a demonstração de um novo caminho significava uma opção de futuro, um rompimento com o que se desenhava até então.

Uma outra jovem, que acabara de despertar, também perguntou:

– E o que deu errado então? Como é que viemos parar nesta situação ridícula onde bombas pairam sobre nossas cabeças?

A mulher parou por um momento, tentando se lembrar de tudo o que os seus pais falavam sobre o verão do amor. E ao mesmo tempo, comparava com o que ela mesma presenciou e observou ao longo dos anos. Não era nada absoluto e conclusivo, mas pelo menos era uma noção.

– Acho que nos perdemos ao longo das gerações enquanto a mensagem se diluía. Muito do amor pregado virou amor próprio, uma espécie de culto egocêntrico. A liberdade virou prisão quando ignoraram consequências. Enquanto isso, a nossa capacidade de auto destruição continuou a crescer, como se fosse um parasita se desenvolvendo no corpo de seu hospedeiro.

O rapaz concluiu:

– Até que se tornou grande demais para o organismo e o hospedeiro morreu. Tia, talvez a gente nunca tenha tido uma chance real de escapar dessa nossa natureza. Às vezes era tudo ilusão. Olha quem começou essa zona: muitos dos responsáveis eram os que posavam como guerreiros contra a opressão.

A garota também completou:

– Não se esqueça dos omissos e dos iludidos. Cada um defendendo com unhas e dentes suas ideologias falidas, como se fossem religião. De verão do amor, passamos para o outono da discórdia e acabamos no inverno da desolação, um inverno do ódio. Outro dia eu ouvi alguém dizendo que todos aqueles malucos estão sendo caçados e mortos, dos dois lados. Que enquanto um deles restar vivo, se tivermos alguma chance de futuro, ela será contaminada pelas ideologias que nos levaram a isso. Olha só a que ponto chegamos.

– É, minha cara Beatrice. Perdemos tanto tempo com discussões inúteis e passamos a lutar com tanto esforço para que o outro não avançasse, que nos esquecemos de que deveríamos avançar juntos. O resto vocês sabem: alguém conseguiu acessar uma parte do arsenal nuclear de um país que poucos desconfiavam que tivesse de fato armas nucleares, outro país tomou as suas dores, outros encararam como agressão e em pouco tempo lá estava a destruição mútua assegurada. Mas pior do que isso: alguns mísseis ficaram perdidos em órbita do planeta, quando alguns grupos tentaram desviá-los.

– E agora tia, eles podem cair a qualquer momento e em qualquer lugar. – terminou Beatrice.

Um homem que aparentava ter 60 anos,  tinha ouvido a conversa enquanto estava na sala ao lado e os interrompeu.

– Já caíram dois. A Austrália se foi. Acabei de receber o comunicado pelo rádio.

– Bom, pelo menos aquele monte de bicho pronto pra matar qualquer pessoa morreu junto. – Emendou o rapaz.

A garota o repreendeu de imediato:

– Não tem graça, cara.

O rapaz não se deu por vencido:

-Ah sim, com a nossa sorte, a radiação lá agora vai criar bichos gigantes como o Godzilla. Se as explosões não nos matarem, os monstrengos irão. Não é, tia Elisa?

– Devemos continuar. Eu vou pegar o traje de proteção e vou na área irradiada mais próxima. – ela respondeu.

– Vai plantar de novo tão cedo, Elisa? – perguntou o idoso.

– Sim, assim partimos logo para o próximo local.

A garota não entendia o motivo de Elisa sempre plantar uma muda em áreas atingidas pelas quais eles passavam. E muitas delas, eram áreas com radiação.

– Por que faz isso, tia? Não vai adiantar mais nada agora. Eu sei que você pegou essas plantas num centro de pesquisa e que elas são altamente resistentes a condições adversas, até mesmo a altas doses de radiação, mas…não faz sentido isso.

Elisa respirou fundo e respondeu:

– Essas mudas representam  uma opção. Elas simbolizam a escolha que sempre temos diante das trevas, não importa o quão intenso estas sejam. Nós estamos juntos aqui porque colocamos muitas diferenças de lado e óbvio, pela sobrevivência. Mas se nós e as outras pessoas que estiverem aí fora não entendermos isso, realmente não vai adiantar. Assim como não adiantava encher a cabeça de ácido, ouvir música psicodélica e pregar o amor livre em contraponto a uma guerra travada em outro país. Entretanto, como opção, simbolizava que não queríamos ou gostaríamos de seguir aquele rumo sombrio. A mensagem pode ter se diluído ou até mesmo se transformado nas décadas seguintes, mas a sua essência não desapareceu. E só porque somos muito bons, extremamente bons em nos meter em conflito, não significa que não possamos lutar contra isso. Quem tenta, pelo menos tem alguma chance, mesmo que ínfima de sucesso. Quem não tenta não tem nada. E neste momento, neste exato momento, tem muita gente lá fora que sobreviveu e não tem mais nada, apenas o medo e o desespero. E isso é ainda pior, porque isso as impede de ao menos tentar. Por isso, não é um simples vegetal que eu planto, é uma idéia. Ou um ideal, se preferir. E vocês têm parte nisso, pois cabe a vocês lutar para que as idéias dêem frutos. Podemos estar numa espécie de inverno da desolação agora, mas ainda podemos criar uma primavera de esperança.

Elisa entrou na outra sala, vestiu o traje de proteção, pegou uma muda de Psicodelia perseverans, e mesmo tendo tudo contra ela, inclusive o câncer que ela ainda mantinha em segredo, decidiu continuar. Afinal, uma chance ao amor era tudo pelo que valia a pena continuar. E partiu, terreno afora, mas sem deixar de cantarolar:

“You may say I’m a dreamer

But I’m not the only one

I hope some day you’ll join us

And the world will be as one…”

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