Quando muros se tornam labirintos

 O ano era 1989 e caía o símbolo de um período em que poderíamos ter sido aniquilados por uma guerra nuclear devido a duas potências que persistiam em disputar pra ver quem tinha o “maior porrete”. Sim, estou me referindo ao muro de Berlim.

    Fruto da “adorável” Guerra Fria, o muro de Berlim foi uma construção não apenas física, mas também simbólica e porque não dizer ideológica, cujo objetivo era impedir que os habitantes do bloco oriental da Alemanha fugissem para o bloco ocidental.

    Como todos nós sabemos, o bloco oriental era o socialista, e portanto alinhado com a ideologia da então União Soviética, enquanto o bloco ocidental era o capitalista, alinhado com os ideais americanos e de vários outros países. E vejam só, o muro foi erguido por iniciativa do…lado socialista, que surpresa. “Temos que proteger nossos cidadãos do capitalismo malvadão” deve ter bradado um efusivo membro do governo daquele lado de lá. Quem sabe se tivessem construído o muro com Lego, a coisa tivesse gerado menos comoção e polêmica? Ou melhor ainda: ao invés de erguer um muro, era só ter espalhado as peças de Lego no chão. Com certeza teria gente indecisa sobre o que seria pior: pisar em uma mina terrestre ou em peças de Lego.

    Enfim, foram 28 anos daquela aberração separando famílias e amigos até a sua queda, que por sua vez simbolizava a decadência do regime com o colapso da União Soviética. Porém, até hoje nos deparamos com muros dividindo as pessoas. Não físicos, claro, mas ideológicos (ainda) e dos mais variados tipos que se possa imaginar. E olha, nós somos muito bons nisso, sabe? Esse negócio de segregar, separar, isolar, é com a gente mesmo. Só não supera por pouco a nossa infinita excelência e criatividade em inventarmos meios de matarmos uns aos outros. Seja lá quem ergue os muros, seja por omissão, por ignorância, por preconceito, por ódio ou por qualquer motivo desse tipo, o fato é que eles são erguidos e vão formando uma espécie de labirinto bizarro, no qual acabamos presos e completamente perdidos.

    Essa necessidade doentia que muitos têm em pertencer a algum grupo, como se desta forma conseguisse um poder fictício para preencher um vazio na própria vida ou dar sentido à mesma é algo muito preocupante. Gustave Le Bon, psicólogo francês, já em 1896 afirmava que as massas agem por impulso e como consequência isso gera uma falsa sensação de poder. Assim como ele, Freud também observou posteriormente que essa falsa sensação de poder pode aflorar certos instintos de forma irresponsável e não apenas isso: existe a realidade do contágio, que é quando os sentimentos e atos contagiam os demais membros de um grupo. Ocorre portanto, a dominação do interesse individual pelo coletivo  Não há empatia que resista a isso, tampouco uma eventual sensibilidade com a condição alheia de quem não pertence ao grupo. E lá no labirinto, está o nosso amado minotauro, o nosso querido monstro alimentado por toda essa divisão besta, pronto para nos estraçalhar da pior maneira possível quando ocorre aquele choque de realidade que faz muitos acordarem para a vida.

    E quem, assim como na mitologia grega, se arrisca a assumir o papel de Teseu e matar o minotauro? Ou o de Dédalo, que uma vez preso com seu filho Ícaro, teve a ideia de construir asas artificiais e fugir pelos céus? Talvez a pergunta mais adequada e mais assustadora seja: Por que não querem sair do labirinto?

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