Sergio – O homem que queria salvar o mundo

Brasileiros, no geral, são pessoas intensas. Quando cheios de esperança e vontade, sentem-se compelidos a irem ao limite, numa sede insaciável pelo objetivo. No caso do diplomata Sergio Vieira de Mello, sua biografia apresenta uma pessoa que teve oportunidade de conhecer o mundo e ter ideais sem fronteiras político-geográficas. A ele apenas importava compreender por que nós não poderíamos ter melhores condições de vida, em todas as sociedades em que ele viveu.

Este desenho de personagem é tratado a pinceladas no filme “Sergio” (2009), um documentário
assinado pela emissora HBO e baseado no livro “O Homem Que Queria Salvar o Mundo”, da
escritora e diplomata Samantha Power. Tanto o filme quanto a narrativa de Power se focam,
com uma certa razão, no incidente que dramaticamente tirou a vida do Alto Comissário das
Nações Unidas na base do Iraque. Nos relatos dos personagens que viveram a aflição, a dor é
perceptível na pele do espectador, com todo o caldeirão político que envolveu o fato. Fica
evidente que Sergio Vieira de Mello foi vítima principalmente da controvérsia humana.

No meio do filme, um integrante da Al-Qaeda menciona seu nome como um criminoso,
contrastando com a vontade do Diplomata em dar dignidade a todos que ele conhecera no
Timor Leste, por exemplo. O crime de Sergio foi basicamente agir alinhado com os interesses
das Nações Unidas, sem um posicionamento antiamericano claro. Para extremistas como os
discípulos de Bin Laden, isso é uma sentença óbvia para a execução. Para qualquer um que se
preze de um conhecimento humanista, que eram os ventos que guiavam Vieira de Mello, tirar
vidas e causar desespero é inaceitável.

Curiosamente, o ponto de vista da força e encontra espelhamento em dois soldados e
bombeiros dos EUA, William Von Zehle e Andre Valentine, que participaram do resgate. Um
deles faz duras críticas às forças diplomáticas das Nações Unidas interferirem com uma zona
de conflito, onde deve-se haver combate direto e menos discussões acerca de direitos
humanos. O outro critica, magoado, o fato de Vieira de Mello o repreender em suas últimas
horas de vida por oferecer-lhe uma oração. E no sobrevivente Gil Loescher, o horror
transformado em esperança de sobrevivência, tendo suas pernas como preço a pagar por isso.

Embora não divague muito pelo período antes do ataque, “Sergio” desperta a discussão
fundamental que deveria ser tema a todos: Quando a humanidade entenderá que limites
políticos, econômicos e religiosos são irrisórios perante um pensamento global? Por que a
vaidade pela dominação alheia deve ser uma característica a ser abraçada, ao invés de um
pensamento conjunto de construção crítico a essa mesquinharia? Na narrativa contínua
humana, nossas imperfeições deveriam inspirar-nos a dar o nosso melhor. Porque até Sergio
Vieira de Mello, homem que vivia pelo mundo, que foi infiel em seu casamento, desejou um
mundo melhor. Para tempos depois entender que o importante é o legado. Eram seus filhos.
Era o seu trabalho na discussão dos Direitos Humanos. Sem Fronteiras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *