O Céu e o Inferno logo começarão a Grande Guerra e está nas mãos de pessoas comuns o recrutamento dos soldados que irão compor as fileiras de combate tanto do céu como do inferno. Estes são chamados de Gate Keepers, pois são os guardiões do portão, selecionando quem irá entrar na Grande Guerra….
Vocação – Parte 1 de 2
Daniel Perk está há duas horas sentado no confessionário, ele segue ouvindo o que as pessoas tem a dizer, coisas que precisam desabafar, “e quem melhor para isso que um padre”, pensa ele.
Daniel já é padre há 8 anos agora, e com pesar ele lembra que já está chegando aos 30 anos. Faltam apenas 2 meses. A ultima senhora finalmente termina sua confissão e ele responde o básico para ela, como fez com todas as outras pessoas:
- Reze 10 pais nossos e 8 ave marias e vá em paz irmã.
Mais um dia que chega ao fim. Ele sai do confessionário e olha para a igreja, totalmente vazia, um silêncio assustador. Ele anda em direção a porta da igreja que dá para a rua. No caminho ele se indaga se esta é a profissão correta para ele, nunca houve duvidas em sua cabeça, mas agora elas pareciam saltar de todo lugar. Era óbvio que estava infeliz. Sempre amou seu Deus, e estava sempre disposto a pregar suas palavras de salvação para o máximo de pessoas que pudesse, mas agora já não tinha certeza se esse Deus existia mesmo. Tanta violência, ódio e morte povoando este belo mundo e Deus não faz nada para mudar. Esse pensamento vem apavorando sua cabeça há um tempo agora, mas ele segue fiel a seu Deus, esperando que este venha e torne este mundo um lugar melhor para nossos filhos.
Ao sair pela porta da igreja, Daniel observa a rua, que está deserta, exceto por duas sombras a mais ou menos 15 metros de distância. Já passa das 20hrs e a rua da igreja é muito mal iluminada. Daniel já estava entrando novamente na igreja quando ouve um grito de mulher. Era uma das sombras que ele vira na rua, momentos atrás. Sem pensar ele da uma pequena corrida até o local onde estão as duas pessoas e observa que é um homem, de boné e roupa meio encardida, e uma mulher bem vestida, mas que agora está caída no chão, chorando e segurando forte a bolsa no peito. Daniel, então olha novamente para o homem que está bem a sua frente e vê que ele o está encarando. Momentos depois, percebe o objeto em sua mão apontado para ele. É uma arma. Daniel pára, assustado, as mãos começam a tremer, e quando ele começa a falar, sua fala sai tremida e meio fina:
- Calma amigo. você não quer fazer isso. Não vou fazer nada, você esta no controle, só pense um pouco antes de fazer alguma besteira. Pode levar o que quiser, só não machuque a moça – Seu olhar não desviava da arma apontada para ele.
- Porque você se meteu, seu puto? Agora vai levar chumbo na fuça, só pra não se fazer de espertinho.
- Ei, calma, espere. Leve a bolsa, leve o dinheiro, leve o que quiser, mas só não machuque ninguém. Não há razão para se fazer isso.
- Eu tenho uma razão pra você. Eu to afim.
Um alto barulho, parecido com fogos, acaba com o silêncio sepulcral que reinava na rua. O assaltante arranca a bolsa da mulher no chão e sai correndo. Daniel, antes de perceber o que acontecera, cai com o impacto no chão. Ele então coloca a mão no peito e sente um líquido. É óbvio para ele o que é aquele líquido. Ele levou um tiro. A dor era imensa, mal conseguia respirar. A visão começa a ficar nublada e antes da escuridão total ele ainda consegue ouvir o baixo choro da mulher caída a seu lado e ouve-a dizendo:
- Oh Deus, Oh Deus.
Ele só tem tempo de pensar uma coisa antes da escuridão tomar conta dele: “Deus não tem nada a ver com isso!”
Quanto tempo se passou e onde estava, eram essas as indagações de Daniel quando ele conseguiu se botar de pé e olhar ao redor. Ele estava num lugar bastante claro, um leve azulado coloria as coisas a sua volta. O lugar era bastante esfumaçado, na verdade era como se estivesse numa neblina, não muito intensa. Ao botar a mão no peito ele percebeu que não havia sinal de ferimento à bala, nenhuma marca, nada. O lugar era bastante silencioso e por isso ele pôde ouvir passos vindos em sua direção, mas não era barulho de sapato e sim de pés descalços. Daniel, meio que se encolheu ao som dos passos se aproximando e por fim soltou um grito:
- Quem está aí? Onde estou? – Olhava em volta e não via nada por perto.
Uma leve risada pôde ser ouvida por Daniel. A risada o assustou e ele deu mais um passo para trás. Então uma silhueta começou a se formar a uns 10 metros dele. Aquela silhueta o assustou terrivelmente, pois não era a silhueta de uma pessoa normal. Ela tina grandes asas. Ele então ouviu:
- Não tenha medo, Daniel. Estamos todos do mesmo lado. Assim espero. Meu nome é Nathaniel, mas isso pouco importa agora.
Agora Daniel já podia ver perfeitamente o dono da silhueta. Abismado ele indagou: “É um anjo?”. Deu outro passo para trás e disse:
- Onde estou e o que vocês querem de mim? O que fizeram comigo? E…
Ao falar isso ele percebeu que estava nu, totalmente pelado.
- Onde estão as minhas roupas?
O anjo olhou para ele com um pequeno sorriso no rosto, percebendo seu medo e espanto com a situação:
- Você está no Reino dos Céus. Você está com amigos agora. Você levou um tiro que acabou sendo fatal e veio parar aqui. Você nos serviu bem na terra, mas ainda precisamos que você nos ajude mais um pouco.
- Você ta de sacanagem, né? Realmente quer que eu acredite que estou no céu conversando com um anjo? Dá um tempo…
- A compreensão é a parte mais difícil, mas mais tarde você compreenderá. Estou aqui para dar uma breve explicação da situação da guerra e do papel que você desempenhará.
- Guerra? Papel? Ajuda? Pára de tentar me enrolar, não está funcionando.
- Apenas ouça e veja.
Dizendo isso, Nathaniel toca com a mão direita no braço de Daniel e de súbito imagens começam a aparecer na mente de Daniel e ao fundo ele ouve uma voz que conta a historia:
“É de tempos que a guerra entre céu e inferno vem tomando forma. Nenhum dos lados pretende entrar numa guerra despreparado, e ambos sabem que a guerra é inevitável. Há milênios os dois lados vem planejando suas estratégias. Mas agora chegou a hora da ação. O inferno já está recrutando soldados e nosso Senhor decidiu que não podia mais adiar o confronto. Então ele ordenou que o Reino dos Céus também começasse a recrutar soldados. Nosso Senhor sempre tentou adiar esta batalha, mas parece que não há mais jeito. Tempos sombrios estão por vir e precisamos estar preparados. É de nosso conhecimento que Lúcifer já botou seus Gate Keepers para trabalhar e nós não podemos deixar que suas forças superem as nossas. Por isso você está aqui. Nosso Senhor escolheu você para ser o Gate Keeper do Reino dos Céus. Logo mais se juntarão a você nesta tarefa. O trabalho do Gate Keeper é recrutar os soldados que vão compor as fileiras de combate. Portanto seu trabalho simplesmente é localizar a pessoa a ser recrutada e recruta-la. Então nós a treinaremos para que ela componha as fileiras de soldados do Reino dos Céus. Você receberá a visita de um anjo quando tiver que recrutar alguém. Ele lhe dirá todas as informações sobre a pessoa e seu trabalho é recruta-la, sem demora. Seu trabalho é de vital importância para o resultado que se obterá na guerra que virá. Você ainda não compreende mas logo compreenderá.”
Enquanto ouvia isso seus olhos viam imagens de demônios e anjos, lutas travadas por séculos. Viu a movimentação das duas frentes em busca da vitória na guerra que se anuncia. Mas então, rapidamente as imagens mudam e o local é rapidamente identificado por Daniel. É a Terra, com crianças brincando no parque, pessoas sorrindo, cachorros correndo, carros passando pelas ruas. E então tão rápido quanto da ultima vez a imagem muda outra vez. É novamente o mesmo lugar da imagem anterior, só que agora os campos verdes deram lugar a campos negros, fogo em varias partes, as pessoas felizes agora são apenas esqueletos deitados imóveis no chão árido. E no fim ele viu um homem andando pelas terras devastadas, mas Daniel viu que apesar da aparência aquilo não era um homem, era um demônio, era O demônio. Lúcifer. Esta foi a ultima imagem vista por Daniel. Um ar frio passou pela espinha dele, e então lá estava ele de novo frente a frente com Nathaniel. O anjo já não sorria mais, sua cara era de preocupação, mas por fim ele disse:
- Você vai ter que escolher, Daniel. De que lado você vai estar nesta guerra?
- Isso é maluquice. Isso não está acontecendo. Pare, por favor…
- Vou te levar de volta. Até logo, Daniel.
Uma luz intensamente branca invadiu sua visão e então veio novamente a escuridão. Algum tempo depois, ainda na escuridão, ele conseguia ouvir um som intermitente de maquina. Um “Bip” que se ouvia a cada dois segundos. E então ele ouve uma voz de mulher:
- Doutor, Batimentos estáveis novamente. O coração parece bater normalmente de novo.
- Ok, vamos aplicar 2 mg de…
E então nada mais ouviu. Havia perdido os sentidos, novamente.
No Reino dos Céus, Nathaniel olha para cima, a espera de algo ou alguém. Eis então que um alto som de trovão eclode pelo local. Nathaniel sorri e diz:
- Tudo como planejado, mais três dias e ele será nosso Gate Keeper. Assim como o Senhor deseja.
Um novo som de trovão eclode no local, Nathaniel junta as mãos, abre um sorriso e diz:
- Amém.
CONTINUA…
Aprecie universos. ZineFique.

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