Verão do Amor

“Marcou-se uma diferença brutal entre antes e depois de 14 de janeiro de 1967”.

A frase é de Anthea Hartig, diretora da Sociedade Histórica da Califórnia, uma das organizações envolvidas nas comemorações dos 50 anos do Verão do Amor.

14 de janeiro de 1967 é a data do Human Be-in, o prelúdio do Verão do Amor que viria. Ele resumiu muito do que pregaria o Verão do Amor, com a assim-chamada contracultura: empoderamento pessoal, descentralização política, convivência comunitária, consciência ecológica, maior consciência, aceitação do uso de psicodélicos ilícitos e consciência política liberal e radical. A contracultura foi o maior fenômeno contra o chamado “establishment”, que pode ser resumido por “tudo que está aí”. Surgiu no Reino Unido e se espalhou pelo mundo, tendo como cidades-modelo Londres, Nova Iorque e São Francisco.

A base da contracultura veio como resultado da Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos, ou comunismo contra capitalismo. Os membros desta contracultura são os hippies, um movimento juvenil cujo termo vem de “hipster”, e era inicialmente usado para descrever beatniks, pessoas que desenvolviam arte alternativa. O primeiro jornalista a popularizar hippie foi Herb Caen, do San Francisco Chronicle.

“Foi uma experiência de explodir a cabeça! Foi revolucionário. Era uma revolução cultural acontecendo. Uma revolução artística estava acontecendo. (…) Havia muitos estudantes. Havia artistas. Era chamada a Nova Boemia. Jovens estavam indo lá porque você podia alugar um quarto por um preço bem razoável. Jovens estavam se reunindo e vivendo em comunidade. Então eles tinham ideias parecidas. Eles eram certamente mais liberais que a maioria. Muitos estavam fumando maconha – que criou um tipo de movimento geral que plantava e cultivava, eu acho”, disse Williuam Schnabel, que na época tinha 17 anos e frequentava os eventos, incluindo o seminal Human Be-In. Hoje um historiador, Schnabel escreveu o livro “Summer of Love and Haight: 50th Anniversary of the Summer of Love”.

Outro que esteve no Human Be-In, Rusty Goldman lembra: “Incenso no ar e a multidão aumentando e aumentando”. De mil pessoas esperadas, estima-se que o público passou de cem mil. “Tranças e flores… não tinha tanta gente com cabelos compridos como se pensava… O Human Be-In foi como um aniversário para todos que estavam ali.”

A “Reunião das Tribos” (um dos slogans do Human Be-In) aconteceu em janeiro, mas isto já deu o indicativo de que San Francisco estava prestes a ser a Meca dos hippies. o verão americano é entre maio e agosto, e todos os apreciadores da contracultura viam na cidade um local para se estar.

Isto causou pânico.

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Para os que viviam no establishment, o Verão do Amor foi uma afronta. Para a polícia e para o governo, era uma época de medo, confusão e falta de comunicação. O futuro de San Francisco como um todo parecia incerto. “Hippies não adicionam nada à comunidade”, dizia o Chefe da Polícia de San Francisco Thomas J. Cahill. “Tem havido muita glamourização quanto aos hippies. Essas pessoas não tem a coragem de encarar a realidade da vida. Ninguém deveria deixar seus filhos fazerem parte desta coisa hippie”.

O Prefeito John F. Shelley fez questão de anunciar que hippies não seriam bem-vindos na cidade.

Nada adiantou.

Assim que o ano letivo acabou em maio, dezenas, centenas, milhares de jovens partiram para San Francisco. As calçadas da Rua Haight ficaram entupidas de gente. Scott McKenzie, em sua clássica “If You Are Going to San Francisco”, já pede:

Se você está indo a San Francisco
Tenha certeza de usar algumas flores no cabelo
Se você está indo a San Francisco
Você encontrará pessoas gentis por lá

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Muitos confrontos aconteceram entre os hippies e a polícia, principalmente no mês de julho. George Harrison, dos Beatles, esteve no cruzamento entre Haight e Ashbury, o ponto alto das reuniões, e seguiu pelas ruas, sendo seguido por uma procissão. Naquele mesmo ano, os Beatles lançaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o disco fundamental do rock hippie, que gerou muitas ideias, músicas psicodélica e até a Tropicália. Harrison depois disse que a experiência o fez decidir nunca mais usar drogas na vida. Paul McCartney esteve na cidade ainda em maio, pouco antes do álbum seminal sair, e houve uma reunião na casa da banda Jefferson Airplane para uma audição.
Haight-Ashbury se tornou o centro de uma comunidade, um espírito coletivo entre artistas fazendo pinturas que evocavam ilusões, bandas que criavam rocks questionadores e um mundo de gente destinada a perguntar o porquê de tudo, inclusive os freios sexuais que ainda existiam. Mulheres ainda eram colocadas a serem donas-de-casa, enquanto os homens usavam ternos e tinham empregos formais e respeitáveis. Se hoje um homem pode aparecer vestindo uma camiseta ou se uma mulher pode ser YouTuber, é tudo resultado deste questionamento.
A música logo mostrou-se o grande expoente. Em um fim-de-semana típico, haveriam shows de bandas como Jefferson Airplane, The Doors, Steve Miller Blues Band e muito mais.
Um ponto alto para aqueles que apoiavam o uso de entorpecentes e drogas psicodélicas, o Verão do Amor só tinha um local para ajudar quem abusava: a Clínica Gratuita Haight-Ashbury. Fundada pelo Dr. David E. Smith, que era então um jovem médico, a clínica tinha voluntários que tentavam ajudar.

Pesquisadores usaram o LSD para tratar depressão e alcoolismo até 1962, e foi o foco de mais de mil artigos científicos. Então a Agência de Administração de Drogas restringiu pesquisas e uso. Agora, ela serviria para expandir a consciência.

E logo a mídia aprendeu a amar aquele bando de jovens com roupas coloridas e potencial até para a nudez.

O Verão do Amor acabou quando as aulas começaram novamente. Muitos jovens voltaram para suas cidades, completamente mudados, talvez em novos amores, mas com certeza com novas ideias. Principalmente, a sociedade americana mudou. Se viu possível que os jovens pudessem organizar um movimento social forte o suficiente a fazer todo o resto ser mudado pouco a pouco. O verão dos protestos contra guerras, pelo amor, pelas flores, pelas drogas e pelo rock n´roll.

Muitos ficaram em San Francisco. Muitos nunca foram, mas sentiram em seus corações que era hora de mudar.

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