Vingança

Em 1978, foi lançado um filme que falava a respeito de uma mulher, escritora, que se mudava para o interior dos Estados Unidos a fim de escrever um novo romance. Lá, ela acaba atacada por cinco homens, que a violentam e a largam para morrer. Só que a protagonista sobrevive e parte para vingar-se de seus algozes. Esse era “I Spit On Your Grave”, considerado hoje em dia um clássico do Cinema Apelativo (ou Explotation), mas que foi desprezado por vários críticos de cinema pelo seu exagero na violência, escatologia e sanguinolência. Ele criou um subgênero do Exploitation, que são os Suspenses de Vingança por Estupro. Tanto que acabou ganhando um remake em 2010, uma sequência em 2013 (cuja protagonista não era a mesma) e um terceiro filme em 2015 que é sequência direta do remake.

Nesse contexto, é meio curioso perceber que “Vingança” (2018) seja referenciado como um filme feminista e revolucionário, quando os próprios princípios feministas não pregam nada do que o filme apresenta. A diretora francesa Coralie Fargeat traz em seu filme de estréia a história de Jennifer (Matilda Lutz), uma socialite americana que está vivendo um romance extraconjugal com o ricaço Richard (Kevin Janssens). Durante uma das escapadas do casal, surgem Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), dois amigos de Richard que resolveram aparecer fora do combinado para uma caçada. Jennifer tenta enturmar-se, acaba despertando o desejo de Stan e acaba sofrendo um estupro. Richard, temendo por seu casamento, tenta assassinar Jennifer, que sobrevive ao atentado e parte para acabar com seus algozes.

Fargeat não se furta a pôr nudez, principalmente masculina, além do banho de sangue e escatologia com feridas na tela, mas aparentemente isto acaba por tirar o foco: há várias passagens questionáveis na execução da película. Escolhas que poderiam ter sido evitadas com mais cuidado e zelo (como o fato de Jennifer utilizar uma Escopeta calibre 12 que estranhamente tem acopladas uma luneta e uma mira a laser, ignorando totalmente o coice da arma). Fotograficamente o filme acerta bastante, com planos ousados e alegorias, mas fica bem complicado levar a sério todo o roteiro, mesmo levando em consideração a tônica do Exploitation.

Matilda Lutz segue onde dá. A modelo e atriz italiana, que ficou famosa por seu papel em “O Chamado 3”, contrasta com o jeito canastrão de Kevin Janssens e Vincent Colombe. Já Guillaume Bouchède não serve para muito além de ser o “homem negligente”, que abandona de forma artificial seu perfil para transformar-se num agressor sem contexto realmente relevante.

O curioso disso tudo é que “Vingança” foi lançado em 2017 na Europa, em 2018 vem a lançamento internacional, e numa ironia absurda, “I Spit on Your Grave” de 1978 ganha no mesmo ano uma continuação direta e comemorativa de seus 40 anos, com elenco e diretor do original. Num gênero morto-vivo, esses filmes se mantém reaparecendo. Porque não é todo mundo que os conhece tão bem a ponto de  reconhecer uma requentada tão feroz.

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