Watchmen voltou, mas nunca se foi

Watchmen é provavelmente uma das histórias em quadrinhos mais famosas do mundo. Publicada em 12 edições entre setembro de 1986 e outubro de 87, a obra de Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (arte) é vendida em versão encadernada ininterruptamente até hoje nos Estados Unidos. Isso ocorre não só porque assim os direitos da obra nunca passarão para os criadores britânicos, mas claro: porque VENDE.

A saga das versões descontruídas, sem esperanças ou simplesmente quebradas dos heróis da Charlton Comics foram criadas pelo barbudo Moore porque a DC Comics planejava usar os originais em sua nova continuidade.

Eles foram comprados pela DC logo antes da Crise das Infinitas Terras, que começou em 1985, e a Terra que os abrigava foi uma das muitas destruídas no processo de destruição do então Multiverso. Capitão Átomo, Questão, Sombra da Noite, Besouro Azul, Pacificador e Peter Cannon Thunderbolt deram então origem ao Dr. Manhattan, Rorschach, Espectral, Coruja, Comediante e Ozymandias que estão até hoje no imaginário daqueles que leem narrativas superheroicas.

De qualquer forma, isso já é prova do meu título: Watchmen não voltou a ser objeto de destaque na DC Comics porque ele nunca deixou de sê-lo. Não somente pela venda da graphic novel, mas pelo que seus temas representaram para os super-heróis do final dos anos 80 até hoje.

Não é difícil ver isso na DC Comics. Se não conhecerem os nomes de revistas e arcos de história a seguir, abram outra aba no Google, porque é bastante coisa para esmiuçar aqui. A Morte do Superman, Crepúsculo Esmeralda, A Queda do Morcego, Extreme Justice, Esquadrão Suicida…

Uma boa parte do discurso militarizante dos supers na DC dos anos 90 e do próprio conceito do visual extremo para adolescentes de 12 anos, denominado “massaveio”, é consequência de Watchmen. Claro, nem tudo isso foi tirado diretamente da obra de Moore e Gibbons – a apelação visual é uma leitura diversa da que os criadores esperavam.

Depois da DC veio a criação da Image, em 1992. Apesar dos visuais extremos, a nova editora, capitaneada por um discurso de pertença das histórias e personagens aos seus respectivos criadores foi um passo em direção a um maior respeito pelos criadores, coisa que não aconteceu com Moore na Distinta Concorrência. Foi, quem sabe, o legado mais positivo do péssimo contrato assinado pelo barbudo britânico sobre os direitos de Watchmen.

A Marvel também foi acertada em cheio depois disso. Quando o visual e a temática massaveio, com histórias sombrias, morte e armas de fogo em profusão se tornaram o padrão da indústria, na metade dos anos 90, a Casa das Ideias vinha mal. Mesmo se apropriando desse discurso narrativo, as vendas não iam nada bem. Isso resultou em Heróis Renascem, com novas origens e revistas terceirizadas para os maiores nomes da Image, como Jim Lee e Rob Liefeld, ambos antigos empregados da própria Marvel.

 

Na década passada, com o novo milênio, os ânimos visuais da inspiração sombria de Watchmen arrefeceram-se. Entretanto, para o bem ou para o mal, as influências em roteiros tornaram-se bem mais sérias com a publicação de Crise de Identidade (DC) e Guerra Civil (Marvel). Herois uns contra os outros, mortes banais, estupro, lobotomia, formação de milícias super-heroicas ligadas diretamente à estrutura de governo dos EUA…

Até que a atual década veio. É costume ouvir de historiadores que um momento só pode ser bem estudado depois que cessa, mas vamos fazer o possível aqui. Os quadrinhos de super-heróis ainda sofrem influências da desconstrução de Watchmen – na DC, mais do que nunca, com as roupagens mais violentas e remetendo à Image original com Os Novos 52.

A Marvel segue na esteira de forma mais comercial, transformando muitos títulos em sequências um do outro, renumerando séries com uma frequência que varia entre um ano e um ano e meio. As novas Guerras Secretas da Marvel reposicionam a S.H.I.E.L.D. novamente como os líderes em segurança global naquele universo.

Até que veio Rebirth. Agora Dr. Manhattan, como descoberto, está por trás de grandes manipulações no Universo DC. É possível até mesmo que Os Novos 52 tenham sido criados por ele – o que faria sentido. A influência de Watchmen na cronologia da editora tomou forma física com o roteiro de Geoff Johns.

Nas revistas da iniciativa que busca combinar todas as cronologias anteriores, Manhattan aparece de forma a trazer a dúvida, a falta de esperança, e o fim dos super-heróis, como o universo de Watchmen pregava. Primeiro com uma aparição do pai de Bruce Wayne, Thomas. No arco The Button, o pai do Batman diz a ele que sua atuação não é mais necessária.

 

 

No final deste mês de setembro, é a vez do Superman. Em The Oz Effect, o misterioso personagem Oz – que muitos acreditavam ser o próprio Ozymandias de Watchmen – revelou-se como Jor-El, o pai de Superman. De forma semelhante, o pai kryptoniano do Azulão pede que ele renuncie à sua vida na Terra, depois de ver tudo de ruim que os seres humanos são capazes.

 

Em pouco tempo, poderá ser outro familiar de um membro da Trindade, já que um dos próximos arcos de Mulher-Maravilha, a ser escrito por James Robinson (Terra 2, Esquadrão Supremo), envolve a figura do irmão de Diana, Jason.

Assim, Manhattan pode acertá-los onde mais dói: no coração. Seus sentimentos podem vir a desviá-los de uma eventual descoberta da grande trama que controla o Universo DC. Esse esquema é nada mais nada menos que a sombra do discurso de Watchmen por sobre a editora em mais de três décadas.

O impacto sentido a partir da obra ocorre até hoje. Apesar de todos os avanços que a obra gerou não somente para Alan Moore e Dave Gibbons, mas para a DC Comics e até mesmo para a mídia dos quadrinhos, elevando a discussão sobre os meandros de uma narrativa em um formato até então marginal para as páginas de jornais e revistas, para as listas de mais vendidos e para a influência em toda a cultura dos EUA, como comprovam listas como a da Time (http://entertainment.time.com/2005/10/16/all-time-100-novels/slide/all/).

Por isso, Watchmen não voltou. Afinal, Watchmen nunca foi embora. Nada termina, leitor. Nunca termina.

[Confira mais textos de Marcelo Grisa no Tubo de Explosão.]

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